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21/02/2021

Mãe de jovem que morreu na enchente relata vazio mesmo 10 anos após perda

O problema crônico das enchentes em Bauru já causou prejuízos a inúmeros comerciantes (leia mais na página 8), bem como a motoristas e motociclistas que tiveram seus veículos danificados ou levados pela força da água. Mas, de todas as perdas, nenhuma foi tão dolorosa como a que se abateu sobre a médica dermatologista Carmem Cristina Bernardi Franco, 68 anos.

Há pouco mais de dez anos, em 30 de novembro de 2010, seu filho único, Rafael Franco Zontini, morreu afogado em uma inundação que tomou conta da Nações naquele dia. Ele tinha 24 anos e havia se mudado recentemente para Bauru para trabalhar como diretor de uma instituição de ensino.

Naquela terça-feira, depois de retornar de Votuporanga, onde tinha passado o fim de semana com a família, Rafael foi surpreendido pela enchente em um táxi. Em desespero, ele desembarcou do veículo e foi arrastado por diversas quadras, até submergir e ficar preso sob um carro na Praça do Líbano.

Além da dor, a tragédia resultou na reaproximação de Carmen com o espiritismo e nos dois livros que ela escreveu sobre os caminhos que percorreu para conseguir se reerguer. A família também batalhou na Justiça e recebeu da Prefeitura uma indenização de R$ 150 mil, que não trazem Rafael de volta, mas que, segundo a mãe, ajudaram a amenizar a sensação de impunidade. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida por ela, por telefone, ao JC.

JC - Como era a rotina do Rafael? Ele voltava para casa todo fim de semana?

Carmem - Toda sexta-feira à tardezinha, ele voltava para Votuporanga e, na terça de manhã, retornava para Bauru. Normalmente, ele fazia a viagem de carro, mas, naquele fim de semana, disse que estava muito cansado e decidiu viajar de ônibus. Na volta, meu marido o levou até São José do Rio Preto e, de lá, o Rafael desembarcou na Rodoviária de Bauru. Ele pegou o táxi para ir para casa e foi quando tudo aconteceu.

JC - Qual é a lembrança daquele fim de semana com seu filho?

Carmem - Ficamos em casa, bebemos nossa cervejinha e conversamos muito, como sempre fazíamos aos finais de semana. Ele era meu companheiro, meu amigo. E, de uma hora, minha vida desmoronou. Achei que não fosse sobreviver. Só consegui ver o vídeo que fizeram dele tentando se salvar depois de um ano e nove meses.

JC - Vocês já tinham passado por uma experiência difícil com enchente em 2007, em Rio Preto, correto?

Carmem - Estávamos na avenida Bady Bassitt e veio uma enchente violenta, de uma hora para outra. O carro afogou e o Rafael disse que, se o nível da água chegasse no banco, a gente teria que sair. E assim foi. Ele me tirou pela janela do carro. Conseguimos andar até um local seguro, mas foi por pouco.

JC - A senhora acredita que ele saiu do táxi, em Bauru, por conta desse trauma?

Carmem - Não. Acredito que ele saiu antes de a água chegar no banco. Cheguei a conversar com o taxista e ele contou que pedia para o Rafael não sair. Acho que já estava marcado para meu filho ir naquele dia, mas não precisava ter sido daquele jeito. No começo, eu me revoltei muito com Deus, questionando o motivo de meu filho ter sido levado daquela forma.

JC - E como a senhora conseguiu se reerguer depois de tamanha perda?

Carmem - Pela fé e a crença, como espírita, de que a vida não acaba aqui e de que a gente ainda vai se reencontrar. Escrevi dois livros sobre a minha dor. O primeiro foi "Sobrevivente da Dor", de 2014, e o segundo, "Renascendo da Saudade", de 2015. No Facebook, fui buscar páginas de mães que perderam filhos e essa rede de apoio também me ajudou. Acabei fazendo minha própria página no Face, "Mensagens de Carmem Cristina", onde conto como sobrevivi e tento ajudar outras mães. Mas, até hoje, tem dia em que ainda baqueio.

JC - Qual a melhor lembrança que a senhora guarda do Rafael?

Carmem - A gente era muito ligado, tinha uma relação de muito amor. Ele era um filho maravilhoso. A gente viajou muito juntos, se divertia muito juntos. Era um menino muito alegre, era tudo para mim. Fui muito feliz com o Rafael ao meu lado durante estes 24 anos.

JC - Gostaria de deixar um recado para as autoridades de Bauru?

Carmem - Peço para que façam as mudanças necessárias para não haver mais casos como este. Sei que a obra é muito cara, mas nada é mais importante e mais valioso do que cuidar da vida das pessoas.



Fonte: JC Net
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