Quando o governo italiano publicou, em 25 de março de 2025, um decreto restringindo o reconhecimento da cidadania para descendentes de italianos, a decisão parecia apenas mais um capítulo da longa disputa jurídica que envolve direitos de imigração na Europa. Para milhares de ítalo-descendentes espalhados pelo mundo, porém, a medida teve efeito imediato: processos paralisados, incerteza e frustração.
Entre os atingidos estava o mariliense Jonathan Zonatto, 35 anos, compositor e ativista cultural. Em vez de limitar-se às redes sociais, Zonatto decidiu transformar sua indignação em música. O resultado foi “Anima d’Italia” , uma composição que, inesperadamente, cruzou fronteiras e transformou um protesto individual em símbolo de identidade.
“Primeiro escrevi um desabafo”, conta. “Depois percebi que aquilo tinha ritmo, emoção e verdade. A música nasceu de um sentimento de injustiça, mas também de pertencimento.”

Poucas semanas após o lançamento, a canção começou a circular entre comunidades de descendentes na Europa e na América Latina. Em pouco tempo, Zonatto passou a ser procurado por veículos da Itália, Argentina, Portugal e Brasil, para explicar não apenas a música, mas a realidade de quem foi surpreendido pela mudança.
O alcance chamou atenção do deputado italiano Luiz Antonio Lorenzato, ligado ao partido Lega, que recebeu o compositor e ouviu o relato de quem acompanha de perto o impacto do decreto.
“Não era só sobre mim”, afirma Zonatto. “Era sobre milhares de famílias que construíram sua história carregando um sobrenome, uma memória e um vínculo cultural com a Itália.”
Em novembro, em Maringá (PR), a trajetória da música ganhou novo capítulo: Zonatto foi premiado pelo programa Brilhando, da RedeTV!, em reconhecimento ao impacto cultural e social da obra.
O prêmio consolidou o que já estava claro nas plataformas digitais: “Anima d’Italia” havia deixado de ser apenas uma canção para se tornar manifestação coletiva.
O decreto que motivou o protesto faz parte de um movimento mais amplo do governo italiano: conter o volume crescente de pedidos de cidadania por descendência, sobretudo vindos da América do Sul. O tema envolve tribunais, partidos políticos e pressões internas — e afeta diretamente brasileiros com laços familiares com o país.
Para Zonatto, o debate vai além da burocracia.
“Não estamos falando apenas de documentos. Estamos falando de história, herança e identidade.”
Mariliense assumido, Zonatto afirma que deseja usar a própria experiência para conectar cultura, política e imigração — sem abandonar o lugar de origem.
“Minha cidade faz parte de quem sou. Levar o nome de Marília para o mundo, por meio da música, é motivo de orgulho.”
O compositor segue divulgando o trabalho nas plataformas digitais e nas redes sociais, onde interage com descendentes que compartilham a mesma incerteza.